Rio de Janeiro — Às seis da manhã de uma terça-feira de maio, Dona Neuza, 58 anos, enche três baldes na bica comunitária da Nova Holanda. A fila já tem doze pessoas. Algumas levam galões de cinco litros; outras, panelas. "Se chover forte, a água fica barrenta por dois dias", ela conta, sem tirar os olhos da torneira. "Se não chover, o caminhão atrasa e a gente dorme sem lavar o chão."
A cena se repete em dezenas de pontos do Complexo da Maré, conjunto de 16 favelas na Zona Norte do Rio que abriga cerca de 140 mil moradores — número estimado pelo Observatório de Favelas com base em dados do IBGE e registros locais. Apesar de estar a poucos quilômetros do aeroporto e de vias expressas, o conjunto ainda não tem saneamento básico universal. Segundo o Sistema Nacional de Informações sobre Saneamento (SNIS), menos de 40% das residências no território tinham coleta de esgoto tratado em 2024, último ano com dados consolidados disponíveis.
Promessa e obra parada
O Plano de Saneamento da Maré, anunciado em 2012 com previsão de investimento de R$ 800 milhões em parceria entre governo federal, estado e prefeitura, entrou em nova fase de licitação em 2024 — mas obras de macrodrenagem e estações de tratamento seguem com cronograma incerto. A Pauta consultou o cronograma publicado pela Companhia Estadual de Águas e Esgotos (CEDAE) e confirmou com moradores e lideranças comunitárias que, em três das favelas visitadas — Nova Holanda, Parque União e Morro do Timbau — não há previsão de ligação domiciliar antes de 2028.
"A gente ouve falar de saneamento desde que eu era menina", diz Jéssica Oliveira, 34, articuladora da Redes da Maré. "Cada eleição vem um candidato fotografar a bica. Depois some." Jéssica acompanha reuniões do comitê gestor do plano e diz que a principal reclamação é falta de transparência sobre etapas concluídas: "Não sabemos quantos metros de tubo foram instalados, onde, quando."
Água não é favor. É direito. Mas aqui a gente aprendeu a agradecer quando o caminhão chega no horário — e isso não deveria ser normal.
Caminhão-pipa como regra
Enquanto as obras não avançam, a distribuição por caminhão-pipa permanece. Contratos da prefeitura do Rio, obtidos via Lei de Acesso à Informação, mostram que entre janeiro e abril de 2026 foram gastos R$ 4,2 milhões em abastecimento emergencial na região. Moradores relatam cobrança informal em alguns pontos — prática que associações locais denunciam, mas que é difícil de documentar sem registro escrito.
Dr. Marcos Vinícius Araújo, infectologista que atende na Clínica da Família do Parque União, lista as doenças mais frequentes ligadas à água contaminada: diarreia aguda, hepatite A, leptospirose após enchentes. "Não é exagero dizer que saneamento é saúde pública", afirma. "Quando o esgoto corre na rua, criança brinca ali. Mosquito, rato, tudo se multiplica."
O que os números não mostram
Os dados oficiais medem cobertura de rede, mas não capturam a qualidade percebida. Em visita de seis meses, a redação ouviu 42 moradores em entrevistas gravadas com autorização. Trinta e um disseram que não bebem água da torneira sem ferver ou filtrar. Onze relataram interrupções superiores a 48 horas no abastecimento no último trimestre.
A CEDAE, em nota enviada à Pauta, afirmou que "obras estão em andamento conforme cronograma revisado" e que "abastecimento emergencial garante mínimo legal de água potável". A prefeitura do Rio informou que "investe em parcerias para acelerar universalização do saneamento em comunidades historicamente negligenciadas". As respostas não detalharam percentual de execução física do plano nem novas datas.
Para Dona Neuza, a discussão técnica chega tarde. "Eu quero saber se minha neta vai ver cano na rua", ela diz, fechando a torneira quando a fila avança. "Duas décadas esperando. Não dá para esperar mais uma."
A Pauta continuará acompanhando o Plano de Saneamento da Maré e publicará atualizações quando houver mudança documentada no cronograma. Sugestões e documentos: [email protected].