Maringá (PR) — Seu Geraldo Kuhn, 61 anos, mede a umidade da terra com o polegar — gesto aprendido com o pai, que aprendeu com o avô. No sítio de 12 hectares em Doutor Camargo, a 80 km daqui, ele planta milho, feijão e hortaliças para venda em feira e em contrato com uma rede de supermercados regional. Em março, um veranico de dezoito dias queimou metade da horta. O seguro agrícola que contratou cobre apenas graníferos. "Perdi R$ 14 mil em tomate e alface", calcula. "O banco não espera a próxima chuva."
A agricultura familiar responde por cerca de 77% dos estabelecimentos rurais no Paraná, segundo o Censo Agropecuário de 2017 — dado ainda referência por ser o mais recente consolidado. Produz alimentos que chegam à mesa urbana, mas opera com escala pequena, mão de obra familiar e acesso limitado a crédito subsidiado. Entre fevereiro e maio de 2026, a Pauta visitou 22 propriedades em 11 municípios do norte e oeste paranaense, além de cooperativas e um centro de comercialização em Maringá.
Crédito que chega tarde e caro
O Plano Safra 2025/2026 reservou R$ 76,3 bilhões para agricultura familiar no país, com juros de 5% ao ano para custeio. No Paraná, porém, produtores ouvidos relatam burocracia e exigência de garantia que inviabilizam o acesso. Dona Maria Elisa, 48, produtora de leite em Faxinal, tentou crédito para trocar ordenhadeira: "O banco pediu aval de três pessoas. Não tenho quem assine."
A Cooperativa Agrofam, em Maringá, atende 340 associados e oferece linha de crédito rotativo com taxa negociada coletivamente — 7,2% ao ano em maio de 2026. "Não substitui o Plano Safra, mas reduz dependência do banco tradicional", explica o presidente, João Vitor Schmitt. Mesmo assim, a cooperativa exige dois anos de associação para crédito acima de R$ 30 mil.
O produtor familiar alimenta a cidade, mas negocia preço com quem nunca pisou na lavoura.
Mercado: contrato desigual
Seu Geraldo vende hortaliças para uma rede com 40 lojas no interior paranaense. O contrato anual fixa volume mínimo e preço revisado trimestralmente com base em índice da CEPEA. Em 2025, tomate caiu 22% no repasse; insumos subiram 15%, segundo planilha que ele mostrou à redação. "Assino porque preciso escoar. Mas sobra pouco para reinvestir."
Pesquisadores da Universidade Estadual de Maringá (UEM) estudam circuitos curtos de comercialização — feiras, cestas, entrega direta — como alternativa. A professora doutora Ana Cláudia Ribeiro aponta ganho de margem de 18% a 35% em casos mapeados, mas alerta para limite de escala: "Família não vira empresa de logística da noite para o dia."
Clima: a variável que não negocia
O Paraná registrou déficit hídrico em parte do norte em março e abril de 2026, segundo o Instituto Agronômico do Paraná (IAPAR). Produtores sem irrigação — maioria dos ouvidos — dependem de chuva no período certo. Seu Geraldo investiu em cisterna e gotejamento improvisado após a seca de 2024; ainda assim, a horta de março não se recuperou a tempo da Páscoa, quando a demanda de tomate sobe.
Para a filha dele, Juliana, 28, que retornou ao sítio após curso técnico em agroecologia, a saída passa por diversificação e venda direta pelo WhatsApp. "Meu pai confia no contrato do supermercado. Eu confio no cliente que conhece nosso nome." Em três meses, ela acumulou 120 clientes recorrentes em Maringá — volume pequeno, margem maior.
A Secretaria de Agricultura do Paraná, consultada pela Pauta, citou programas de irrigação e assistência técnica itinerante, sem detalhar cronograma de expansão para municípios visitados. O Banco do Brasil informou que "critérios de crédito seguem normas do Plano Safra e análise de risco individual".
A Pauta continuará acompanhando a safra de inverno no norte paranaense. Relatos e documentos de produtores: [email protected].