Quixadá (CE) — Na Escola Estadual Dom José Tupinambá da Frota, no sertão central do Ceará, a turma do 8º ano B de matemática assiste a um vídeo gravado em 2023. A professora titular pediu exoneração no ano passado; a vaga segue aberta. No corredor, o coordenador pedagógico, que também leciona português em outra turma, confessa: "Às vezes coloco um monitor para manter ordem. Não é o ideal, mas é o que temos."

Entre março e maio de 2026, a Pauta visitou 18 municípios cearenses fora da região metropolitana de Fortaleza — de Crateús a Iguatu, de Tauá a Limoeiro do Norte. Em 14 deles, encontramos pelo menos uma escola estadual com turma sem professor titular em disciplina obrigatória do currículo. Os relatos se repetem com variações: concurso público sem previsão, docente que aceita lotação distante e desiste nas primeiras semanas, escola sem internet estável para aula híbrida.

Números que o estado reconhece — em parte

Segundo dados da Secretaria da Educação do Ceará, divulgados em abril de 2026, havia 2.847 vagas de professor em aberto na rede estadual — número que inclui licenças, aposentadorias e exonerações. O último concurso para provimento de cargos na educação básica foi realizado em 2019; desde então, a reposição ocorre majoritariamente por contratação temporária, modalidade que, segundo o sindicato dos professores (SINDIUNE), apresenta rotatividade de 35% ao ano no interior.

Representação visual de estrutura escolar e carteiras em sala de aula
Escolas visitadas no interior do Ceará relatam dificuldade de reter docentes em municípios distantes da capital. Ilustração: arquivo Pauta

"Não é falta de vontade de estudar", diz Ana Paula Ferreira, 42, mãe de dois alunos em Tauá. "Meu filho chega em casa e diz que passou o dia inteiro vendo vídeo. Ele quer professor ao vivo, para perguntar, para discutir. Isso não aparece em boletim — mas aparece no aprendizado."

Professor ausente é sintoma. A doença é concurso parado, transporte que não chega e escola sem condição de funcionar.

A logística que afasta o docente

Em Crateús, a 420 km de Fortaleza, a professora temporária Renata Lima, 29, descreve a rotina: acorda às 4h30, pega van compartilhada com outros servidores, chega à escola às 7h15. "Se a van quebra, não tem aula. Já aconteceu três vezes neste semestre." Renata recebe R$ 2.100 mensais pelo contrato temporário — valor abaixo do piso nacional do magistério para 40 horas semanais.

A secretaria estadual, em resposta à Pauta, afirmou que "estuda edital de concurso para 2027" e que "programas de moradia para professores em municípios prioritários estão em fase de diagnóstico". Não houve confirmação de data para publicação do edital nem valores previstos para moradia.

O que acontece na sala quando o professor não vem

A redação acompanhou oito dias letivos em quatro escolas. Registrou: turma de história com 45 minutos de vídeo e 45 de "atividade autônoma" sem supervisão pedagógica; sala de ciências fechada por falta de docente e de material de laboratório; monitor com ensino médio incompleto conduzindo atividade de reforço em matemática.

Pesquisadores da Universidade Federal do Ceará, consultados pela reportagem, alertam que a substituição prolongada por mídia gravada não equivale à mediação presencial — especialmente em anos finais do ensino fundamental, quando a abstração matemática e a leitura crítica exigem interação. "Não estamos falando de tecnologia ruim", diz a professora doutora Lívia Campos, da UFC. "Estamos falando de ausência de projeto pedagógico quando a tecnologia vira muleta."

Para o estudante Lucas Araújo, 14, de Quixadá, a conta é simples: "Se não tem professor, não tem aula de verdade." Ele quer cursar engenharia e estuda por conta própria à noite, com vídeos de canais educacionais. "A escola deveria me ajudar, não me deixar sozinho."

A Pauta solicitará atualização à Secretaria da Educação do Ceará quando houver publicação de edital de concurso. Correções e relatos verificáveis: [email protected].